top of page


Cidade 2.0
O garoto já estava acordado quando as luzes surgiram no céu. Por um instante, elas rasgaram a escuridão da noite. Com um rugido, passaram sobre a cidade adormecida. Brilharam como fogos de artifício no Dia da Independência e desapareceram além das colinas arenosas. Seguiu-se um minuto de silêncio — como se nada tivesse acontecido. E, pela manhã, o pai voltou. — Pai! — o menino correu para abraçá-lo. O homem deixou-se cair pesadamente em uma cadeira, apoiando-se no encosto de

Igor Antoniuk
há 4 horas4 min de leitura


Visitante
Dirigia o carro havia pelo menos três horas pela estrada do interior mineiro, sem descanso sob o sol escaldante. Tinha pressa. Pisava fundo o acelerador e desejava achar um posto de gasolina. Iria parar e correr direto ao banheiro. A essa altura, fatigado pelo percurso e arrependido da refeição duvidosa realizada na última parada, inventava meios de conter o ardor incessante do intestino que se fazia curto para o conteúdo borbulhante e resoluto. Tentava esquecer o infortúnio.

H.G. Wesley
há 4 horas6 min de leitura


No táxi
Opa! Tá livre? - Sim, amigo. O senhor pode entrar, por favor. - Obrigado. Não precisa colocar a mala no porta-malas, não, vou deixar no banco de trás. - Olha, senhor, vamos pôr no porta-malas, sim! É melhor. - Ok. Mas é que seria mais fácil... - Não. É muito visado. O senhor sabe, tem muito malandro de olho nos taxistas, e a mala no banco acaba sendo chamariz. - É, o senhor está certo. Obrigado. - Não tem de quê. O senhor vai pra onde? - Me deixa ali em frente ao Maksoud, faz

Leonardo Vinhas
há 4 horas3 min de leitura


Noturno
A noite é igual. Sem sono. Os flashes azulados da TV piscam em mim. Fixo e não vejo. Apuro e não ouço. Apenas as imagens se repetem em sequência alucinante. O dedo cravado no controle remoto aperta e muda. Altera os canais de forma contínua. Disparo a esmo. Um franco-atirador sem objetivo fixo. Transformo a tela da TV num mosaico abstrato, vivo, mutante. Nada me presta agora. Nada que me faça parar de apertar o controle. O dedo começa a doer. O corpo reclama. A impaciência ve

Kinho Vaz
há 4 horas4 min de leitura


você arquitetou uma fuga perversa, e não satisfeita, quer arrancar meu coração que já não me é muito fiel
o amor é um fofo. mas a paixão é o inferno com suas chamas queimando lentamente cada átomo de um corpo. um coração boêmio me habita, e não pelo fato de eu gostar de viver a noite paulistana em bares com meus amigos, mas porque ele, sim, meu coração, gosta de dar umas escapadas para aproveitar a vida como se não fosse ele o motivo pelo qual eu mesma tenho uma vida. ele não entende que precisa de mim, para andar melhor por aí. sem a minha ajuda ele se rasteja pelo chão pulsando

Agatha Selva
há 4 horas4 min de leitura


A dor silenciada
Um grito feminino cortou o silêncio do Residencial Boa Morada, em Santo André, naquela noite fria de julho de 2025, por volta das 20h, em uma quinta-feira que parecia comum. Era Clara. Todos correram para as janelas. Buscavam entender o que se passava. Celulares foram deixados de lado, tarefas domésticas foram suspensas e quem estava apenas desfrutando do conforto do lar, não conseguiu ficar indiferente ao burburinho. Pela janela do quarto, o surto de uma mulher de meia-idade

Vivi Silva
há 4 horas3 min de leitura


Noite da invasão
Segunda-feira, 19 de maio de 1986. Por volta das oito da noite, ele saiu do banho. Como era de costume, foi até a varanda do apartamento, no oitavo andar do prédio onde morava, ali, bem próximo ao aeroporto, na pacata cidade de São José dos Campos. Apreciava a deliciosa noite de outono. De repente... — Mas, o que será aquilo? — perguntou a si mesmo. Um enorme objeto voador, em forma de disco, pairava sobre o prédio, a mais ou menos dez mil metros de altitude. Podia ser visto

Zé Nascimento
há 4 horas5 min de leitura


Breve crônica de inverno para uma infeliz cidade
A cada manhã, para ganhar meu pão, atravesso as ruas do bairro, passageiro num ônibus, vendo o sol fraco bater nas antigas casas coloridas do caminho. Ainda há muitas delas com acanhados jardins por trás de muros baixos, sem garagem, e pequenas escadas que levam seus moradores até a porta. No ônibus, nessas manhãs de inverno, as pessoas parecem se conhecer, são simpáticas e se cumprimentam como se tivessem acordado ouvindo Penny Lane: “Olá! Como vai?”. Desço do coletivo e per

Luiz Henrique Gurgel
há 4 horas2 min de leitura


Do caos e amor
Avon, Natura, Mary Kay. Avon, Natura, Mary Kay. Tudo para pronta-entrega! Moça, vem cá conferir os produtinhos!” A rua Coronel Oliveira Lima, no centro de Santo André, não é o que tem de pior no centro da cidade, mas também não é bem o que se pode chamar de um local aprazível. À primeira vista, o calçadão - que leva o nome de um ex-vereador do final do século XIX - não é de todo desprezível e não se pode negar que há nele uma certa aura especial, algum charme nostálgico, prin

Edu Guimarães
há 4 horas2 min de leitura


Preconceitos
Aqui na Terra, temos o livre arbítrio das escolhas Quando nascemos está em branco a nossa folha Com o passar dos anos vamos escrevendo as histórias Tem dias que são de vitórias, outros de tristezas E alguns até de glórias Seguimos em busca de uma tal felicidade E nos deparamos com mil preconceitos em qualquer idade E uma grande maldade em toda parte da cidade Qual será nosso futuro em um mundo com tanta gente estranha? Na rua, em um show ou no bar a violência só cresce E o m

Celise Melo (Celelê)
há 4 horas1 min de leitura


Não importa
Não importa mais Como me pareço Como ando Como aconteço O que foi problema Foi dúvida ou dilema Não importa mais A escolha não feita A conta que não fecha Os finais e os começos Erros e acertos Não importa Se não quer Se não me gosta Se não me aprova Nem te conheço Nem a palavra torta Ouvida ou proferida Me importa Pertence ao passado Não quero de volta Ultimamente Só o que me importa É minha vida Aqui nesse agora Enquanto agora é

Paola Zanei
há 4 horas1 min de leitura


Amor de Verão
Sou chuvisco ligeiro. Mas totalmente certeiro. Fico marcado pelo beijo. Deixo-o fora do eixo. A mente ganha molejo com o seu desejo. E você fica sem jeito em seu delírio perfeito.

Gabriela Ceron
há 4 horas1 min de leitura


Nego Gato
Sou gato, não nego, sou nego de fato, de tato e olfato, não nego: sou gato. Sou gato, sou nego, sou nego e não nego, não fujo do fato, nem finjo que faço. Não nego, sou nego, preciso de arrego; sei bem que um carinho faz bem pro meu ego.

Fábio Gonçalves
há 4 horas1 min de leitura


Poesia, somente
Eu queria ser uma farmácia de conhecimento, onde você a todo momento, entrasse em busca de cura. Eu queria ser como um remédio, para quando você se aproximar, sua turbidez alcoólica passar. Eu me sentiria feliz nesse dia. Queria eu, ser como uma flor, que atrai o beija-flor com sua seiva adocicada e o incita a voltar. Que o alimenta e fortalece, que em seu voo não esmorece. E retorna à sua flor que lhe dá vida e vigor Eu quero ser, para ti, como o rio, com a capacidade de aca

Luís Miranda
há 4 horas1 min de leitura


Marisco
Um gato quase marisco (de olhar de chinês) de maricagem comigo correu as unhas no meu sapato novo e achou pouco mijou nele. E se achando dono da casa em total frajolice sorriu pelo canto da boca com cara de bicho.

Andrea Vila-Lobos
há 4 horas1 min de leitura


Na boca do gato
Na Boca do Gato - Mayara Calvi Nanquim em offset - A4

Mayara Calvi
há 5 horas1 min de leitura


O Poderoso DiGby
O Poderoso DiGby - Eduardo Kaze Caneta nanquim em offset 180g - A4. Livremente inspirado na ilustração de Josan Gonzalez para a capa de Neuromancer, de William Gibson - editora Aleph, 2016
Eduardo Kaze
há 5 horas1 min de leitura



Zhô Bertholini
4 de ago.0 min de leitura


Palavras abandonadas
Acontece de tempos em tempos e as justificativas são muitas. Aproximação cultural, simplificação do idioma, adequação aos novos tempos, mas, na verdade, é bom pra padronizar a língua em diversos países e vender livros. Alguém lucra, não sei quem. O fato, é que a cada nova reforma ortográfica nossa cidade cresce. A miserável e esquecida Cidade das Palavras Abandonadas, inflando e tornando-se irrespirável. Intragável. Parece que a Língua Portuguesa, a matriarca de toda a civili
Eduardo Kaze
4 de ago.5 min de leitura


Estações
Próxima estação, Mooca, anunciava o maquinista. Ainda faltavam duas estações para chegar à Luz. Tive sorte. O trem estava mais vazio, não sei se era o dia ensolarado, mas as pessoas pareciam mais felizes. Atípico, pois estava acostumada com os olhares perdidos, como se estivessem em transe e somente despertassem ao ouvir o nome de suas estações. Normalmente embarcava naquele trem lotado, a prova do descaso público, comigo, com as pessoas que ali, como eu, sobreviviam a cada

Vivi Silva
4 de ago.1 min de leitura
bottom of page