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há 2 horas
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Dirigia o carro havia pelo menos três horas pela estrada do interior mineiro, sem descanso sob o sol escaldante. Tinha pressa. Pisava fundo o acelerador e desejava achar um posto de gasolina. Iria parar e correr direto ao banheiro. A essa altura, fatigado pelo percurso e arrependido da refeição duvidosa realizada na última parada, inventava meios de conter o ardor incessante do intestino que se fazia curto para o conteúdo borbulhante e resoluto. Tentava esquecer o infortúnio. Era impossível. Avistou a placa com pictogramas de bomba de combustível. Abaixo deles, a derradeira informação calamitosa: doze quilômetros. Não aguentaria. Passou a mirar acostamentos e decidiu pôr fim à tortura de forma rústica. Viu um lugar propício, onde a balaustrada guardava uma vala profunda atrás de si. Era privacidade suficiente para o desesperado. Estacionou procurando o papel higiênico dentro do porta-luvas e a aproximação do alívio fez aguçar a vontade. Quase não conseguiu segurar e abaixou as calças apenas um segundo antes do lamaçal fétido correr de suas entranhas e manchar o solo. Suspirou atenuado, leve e grato. Limpou-se, vestiu-se e acendeu o cigarro. Estava a salvo tragando o bastonete incandescente e pensando como as coisas parecem diferentes sob o aperto, como o peso da urgência faz a distância se alargar. Meia dúzia de quilómetros era nada agora, livre daquilo. Tragou profundamente a fumaça, a manteve no pulmão por instantes e soltou a baforada para o alto. Foi então que viu: no céu, enorme como um zeppelin, algo planava bamboleante. Algo que não parecia com nada visto neste mundo…


*


No pasto rareado pela seca, duas vacas pastavam rodeadas pela cabra e o cachorro da família. Cercas mal-ajambradas fechavam o pequeno terreno onde se via ainda um diminuto curral de galinhas meio depenadas e subnutridas. Da casa, um vapor escapava pela janela. A senhora cozinhava no fogão de lenha. O senhor postava-se à porta, matutando o espaço sem recursos. Ideias, as tinha, faltava-lhe o cobre para restabelecer a terra há muito ressequida pelo tempo extenuante. Mascava capim-braquiária no canto da boca para aplacar o estômago antes do almoço. Levaria ainda algum tempo para a boia… A senhora cruzou com ele rumo ao alpendre carregando a panela fervilhante. Não estava pronto, era apenas a troca da água do mondongo em processo de limpeza, pra tirar o cheiro de couro e bicho. Serviria o prato com o arroz trocado por duas galinhas que pararam de ovipar. Cansavam-se já de comê-las e comemoraram a variedade da buchada. A senhora voltou, encheu de água a panela e retomou o escaldamento. “Busca salsa, véio, que já vou picalhar ela antes…”, disse ao Senhor apontando com o queixo a reles hortinha sobrevivente. Ele meneou e foi, lento como era. Tampouco chegou às folhas, ouviu o berro da cabra, o mugido das vacas e o latido do cão. E eram diferentes do brado comum deles. Eram sons de terror. Ajeitou o chapéu na cabeça, dando vista ao horizonte, onde um charuto enorme e prateado voava velozmente em sua direção, tisnando o espaço à pretume de fuligem. Rasgou o vento sobre sua cabeça. Fez o velho cair sentado no chão, aturdido, quase surdo aos gritos de “valha-me Deus e minha Nossa Senhora” vindos da velha, que derrubou a comida no chão de tanto medo e agonia ao perceber o telhado esvoaçando no estampido sônico da coisa que vinha e caia atrás dos morros, lá pros lados da cidade.


*


Fabiana, a mais velha das três amigas, fez que fez até a mãe de Gorete e Janaina deixar as filhas trabalharem numa diária de faxina. Era lida fácil, argumentou, além de perto e de paga garantida. Foram elas dar cabo do serviço. Pelo dia, recordariam mais tarde, não houve contratempos senão a sensação de afã ansioso como se prenúncio do porvir. Terminaram sem atraso, à tempo do café da tarde. Conversavam sobre pães de queijo, café e bolo de fubá no caminho da volta. Sentiam esse cheiro na cabeça, antecipando-o com vontade. Tomaram por bem, assim, cortar caminho no terreno baldio que lhes evitava uma quadra. Ali o cheiro mudou. O aroma suave das iguarias imaginadas deu lugar ao odor penetrante do enxofre. A atmosfera tomada pelo cheiro. Caminharam pensando de onde viria tal futum, concordando ter algo podre no ambiente. Foram pela trilha cercada de matos altos por pelo menos dez metros. Estavam na metade do trajeto. “Olha lá, picharam o muro!”, apontou Gorete. Todas observaram, acostumaram a vista e, só então, enxergaram de fato: ao pé da construção, algo ofegava agachado e retorcido, sentado sobre os próprios calcanhares, arqueado, envernizado e reluzente como um coração gigante. Houve um átimo de paralisia. A coisa parecia viva e olhou para as meninas que assustadas correram, gritaram e alarmaram a cidade: tinham visto o diabo de “olhos vermelhos, três chifres e pés bifurcados numa pele marrom”.


1

Ubiratan Domingues desligou o computador, arfou canseira e saiu da redação. Escreveu pautas frias o dia todo para O Farol, jornal menor, de baixa circulação naquelas bandas. Tinha cinquenta e poucos anos e estava há vinte tocando o folhetim. Seguia rotina imutável: fechado o expediente passava pelo mercado, apanhava pão, seguia pela Rua Direita. Usava sempre a mesma calçada e acabava no boteco de costume. Recebia a bebida sem precisar pedir; encontrava figuras de cronogramas semelhantes que entornavam copos de cachaça entre prosas intermináveis. Sentia-se à vontade entre os ébrios. “Devia ter sido dono de uma birosca…”, pensava.


Ao balcão, não pôde deixar de reparar na conversa da dupla adjacente. Falavam de algo extraordinário, inacreditável sobre luzes estranhas, de meninas que viram o demônio. “Está chegando o fim dos tempos…”, arrematou um deles. “e pelo jeito não é Jesus que vem pra cá!”

Na rua, sirenes de ambulâncias de bombeiros explodiram em doppler cruzando à toda velocidade. Ouvia-se ainda, distante, um helicóptero… Ubiratan não deu bola. Devia ter uma festa no quartel, no mínimo, ponderou e seguiu no trago. Os companheiros de tablado ainda tagarelando sobre o pânico das meninas, que passaram desesperadas bem em frente a oficina. “Tem alguma coisa acontecendo…”, disse o outro. O jornalista não se impressionou. Macaco velho, evitava burburinhos sabendo não sobrar muito dessas histórias quando investigadas. Terminou a dose, saiu, chegou quase no meio-fio quando surgiram os jipes do exército, um camburão camuflado, soldados sisudos de metralhadora em mãos nos veículos.


— Tem alguma coisa acontecendo — defendeu o bêbado de dentro do bar. — Eu disse…


2

Precisou de pouca apuração para descobrir a casa das meninas – na cidade, não se falava de outra coisa. Antes, fez contato com as autoridades. “Exercício de Campanha”, disseram sobre a noite anterior, e nada mais. Ubiratan sabia ser as desculpas curtas as que escondem enredos longos. Os bêbados estavam certos: acontecia alguma coisa.


Ainda não era meio dia quando se viu diante da residência. Reparou em uma van estacionada, cuja lateral era ilustrada por um enorme rosto alienígena e o título garrafal “Primeiro Comando Ufológico Brasileiro”. Bateu palmas e foi recebido por uma mulher de aproximadamente quarenta anos, pele bronzeada, em vestido auto-confeccionado num tecido floral. “O senhor está com o doutor Rauda?”, quis saber.


— Não! Sou do jornal O Farol. Será que… — a frase ficou sem final. A mulher destrancou o portão e abriu caminho. — Pode entrar. Toda ajuda é bem-vinda…


O jornalista estranhou. Não estava acostumado a boas recepções. Pelo ofício, era comumente visto como um intruso, um bisbilhoteiro da vida alheia. Alí, todavia, a desconfiança parecia perder terreno para o medo e a dúvida. Entrou. Na sala do imóvel, encontrou as três meninas sendo interrogadas por um sujeito peculiar: graves sobrancelhas grisalhas sobre os olhos negros, constrastando a calvície plena da figura. Cabeça rodeada por finos e escassos fios de cabelos igualmente brancos. Trajava, apesar do calor, um casaco pesado, camisa e gravata. Ouvia atentamente o relato das garotas enquanto um segundo homem, este baixinho, quieto, de boina e suspensórios delineava traços rápidos num caderno sem pauta. Era um desenho parecido ao visto na van. Olhos enormes e redondos, crânio desproporcional, ombro esquelético. A diferença eram as protuberâncias na cabeça: três calombos, dois nas extremidades da testa, um ao centro.


— É, sem sombra de dúvidas, um ser extraterrestre! — explicou, determinado, o homem a quem Ubiratan se apresentou mostrando a credencial de imprensa. Recebeu em troca um cartão de visitas onde se lia: “Rauda Franco - Pesquisador Especialista em Fenômenos Paranormais”.


— Temos ainda duas ocorrências já registradas de pessoas que garantem ter tido contatos de Primeiro Grau nesta região — continuou — Estamos indo encontrar a terceira, que é um Contato de Terceiro Grau. Quer vir com a gente?



Continua na próxima edição.

 
 
 

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