No táxi

Opa! Tá livre?
- Sim, amigo. O senhor pode entrar, por favor.
- Obrigado. Não precisa colocar a mala no porta-malas, não, vou deixar no banco de trás.
- Olha, senhor, vamos pôr no porta-malas, sim! É melhor.
- Ok. Mas é que seria mais fácil...
- Não. É muito visado. O senhor sabe, tem muito malandro de olho nos taxistas, e a mala no banco acaba sendo chamariz.
- É, o senhor está certo. Obrigado.
- Não tem de quê. O senhor vai pra onde?
- Me deixa ali em frente ao Maksoud, faz favor?
- Tá.
- Dá a bolsa. O senhor não me leve a mal, mas é realmente uma precaução.
- Quié isso, entendo perfeitamente. Eu é que agradeço. Muito tempo fora, acho que desacostumei. Mas o senhor está certo.
- É muita malandragem mesmo, sabe? E eles estão de olho. Estão sempre de olho.
Por isso peço ao passageiro que guarde as malas no porta-malas, ou se prefere transportar no carro, se é algo pequeno, que deixe no chão. É mais seguro.
- É verdade. Mas achei que isso tivesse melhorado. Tinha disso quando morava aqui em São Paulo, mas depois deu uma sossegada.
- Continua. Não se tem mais vergonha. O senhor está vendo ali na frente, no próximo semáforo, ali da Manuel Dutra? Tem aquele retorno ali. É conhecido como “cinturão das bolsas”. Tem um malandro lá – é sempre o mesmo – que fica de olho, passa e leva, principalmente bolsa de mulher. E nunca pegaram ele.
- Pô, que foda. Mas o cara passa de moto e rouba?
- Nada! Passa a pé mesmo. Rouba e sai correndo. Ali pra baixo é contramão, e tem aquele terreno ali, ó. Ele entra naquele monte de cortiça e quem vai achar?
- E é sempre o mesmo cara?
- Sempre o mesmo. Eu inclusive já tentei atropelar ele.
- É?
- É. Tentei pra valer, pra matar mesmo. Mas o cara é ligeiro.
- Sério, amigo?
- Sério. Eu tava vindo, olhei ele saindo correndo com uma bolsa de senhora que ele havia acabado de tirar do táxi e joguei meu carro, sem dó nem piedade, em cima dele.
- Mas o cara é ligeiro e escapou.
- Ligeiro. Bateu a mão no capô e se jogou pra cima, voltou, bateu o pé no asfalto, recuperou o equilíbrio e saiu correndo. Parecia coisa de filme!
- Sei. Mas me diz, por que a gente tá vindo por aqui?
- É porque... Ahn, o senhor ia em frente ao Maksoud, né?
- Isso.
- O senhor me desculpe, mas é que a gente foi conversando e acabei marcando touca. Era só ter subido ali a Brigadeiro, né?
- Isso. A gente já teria chegado.
- Puxa, o senhor me desculpe. Mas por aqui dá, né? É só subir ali e... Mas ali é...
- Não, tudo bem. Sobe ali na Itapeva e me deixa na Pamplona, esquina com a São Carlos do Pinhal.
- É, por ali é uma boa. O senhor só vai ter que andar um quarteirão.
- Isso. Tudo bem que eu tinha pegado o táxi pra não ter que andar, a mala tá bem pesada e eu to com o ombro machucado. Mas acho que aquela quadra não dá nada.
- Ok. O senhor me desculpe mesmo. Já estamos quase ali, eu paro mais na esquina pro senhor descer mais perto.
- Obrigado.
- Olha aí, já deu. Vou tirar a mala do senhor.
- Ok. Deu 35, né? Faz por 30?
- Não dá, amigo.
- Mas a gente deu uma volta maior que ia dar, e o senhor errou o caminho.
- É verdade. Mas foi porque eu estava conversando com o senhor.
- Entendo. Mas eu já tinha te dito o destino. E nem chegamos exatamente nele.
- Entendo seu ponto de vista, senhor. Mas não tenho mesmo como cobrar menos.
- Tá bom, deixa quieto. Toma aí, eu tenho trocado.
- Obrigado, senhor. Tenha uma boa viagem.
- Obrigado, amigo. Mas me diz uma coisa: se você ver o cara de novo, aquele das
bolsas, você vai tentar matar ele outra vez?
- Tentar, não. Vou conseguir.
- Ah, ok. Bom trabalho, e boa tarde.
- Boa tarde pro senhor também. Vai com Deus.




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