Noturno

A noite é igual. Sem sono.
Os flashes azulados da TV piscam em mim. Fixo e não vejo. Apuro e não ouço. Apenas as imagens se repetem em sequência alucinante. O dedo cravado no controle remoto aperta e muda. Altera os canais de forma contínua.
Disparo a esmo. Um franco-atirador sem objetivo fixo.
Transformo a tela da TV num mosaico abstrato, vivo, mutante. Nada me presta agora.
Nada que me faça parar de apertar o controle. O dedo começa a doer. O corpo reclama.
A impaciência vem em espasmos. Incomoda.
Mudo de posição. Não basta.
Levanto-me e estico as pernas, os braços, o pescoço. Alongo meu desconforto. Largo o controle remoto. O dedo resiste. Permanece retraído. Estalo seus ossos.
Vou para a varanda e recebo a noite na cara. Um tapa frio do nada.
Abraço-me.
Encontro-me só.
Lá fora repete o aqui dentro: vazio de tudo.
Penso em comer algo. A boca saliva. A mente pondera a ausência de fome. É bom comer. Mas não precisa. Só um pouquinho. Vou engordar. Comi pouco hoje, não vai fazer diferença. Controle-se. Só uma coisinha para dar gosto. Melhor não. Preciso mastigar algo. Dane-se.
A razão cede vencida.
No caminho até a cozinha, olho de relance para a TV. Uma mulher quase nua se oferece em luz azulada. Vende sedução. A libido interfere. Pede uma chance. Eu atendo por alguns segundos aos apelos da sereia eletrônica. Tento entrar no clima. Aproveitar aquela visita encenada. Vestir a solidão com alguma fantasia.
Nada.
A resposta não vem. Percebo que não estou naquele script e desisto.
Largo mão da libido.
Volto a pensar em comida.
Retomo o caminho até a cozinha. Abro a geladeira e vasculho com os olhos. Procuro algo que apeteça. Doce ou salgado? Não. Só vou beber algo. Escolho o refrigerante.
Bebo goles fartos direto no gargalo. Devolvo a garrafa e fecho a porta, mas não consigo me afastar da geladeira.
Não adianta.
Já disparei o gatilho. Despertei a língua insossa.
Vem uma vontade forte de comer algo salgado. Vá com calma. Só um pouquinho. Controle-se. É só um pedaço e pronto. Não precisa. Que se dane.
Abro a geladeira outra vez.
Espreito, predador.
Um pedaço de pizza ressecada. É isso.
Uma mordida. Duas. Três. Mais goles de refrigerante no gargalo.
Agora chega.
Só um doce.
Chega.
Um tiquinho de nada não vai fazer diferença.
É melhor deitar. Procurar o sono.
Já vou. Depois do doce. Depois desse pedaço de torta. Agora um gole de refrigerante e pronto. Basta.
Começo a fechar a porta e vejo um pedaço de queijo. A boca enche d’água, pede sal.
Adoro queijo. Não, já chega. Puta merda, que vontade. Vai deitar. Só mais isso.
Venço o controle mais uma vez.
Levo o queijo até a mesa. A porta da geladeira permanece aberta atrás de mim. Sinal de desistência. Já não há mais conflito. A razão fecha os olhos para o vício.
Uma fatia de queijo. Duas. A terceira vem com um resto de pão dormido. Mais um pouco de refrigerante para ajudar a descer. Fatias de salame com biscoito. Goiabada com mostarda. Torradas com manteiga e açúcar. Mais refrigerante. Uma última lasquinha de torta. Outra mais.
Pronto.
Fecho a geladeira. Saio da cozinha. Volto ao sofá.
Trago um pacote de amendoim.
A TV agora está vestida. É clássica. Executa Noturno, de Chopin.
O dedo nervoso cumpre a sua sina. Tortura o controle. Acelera a alternância de opções.
Cento e trinta canais mudados de um fôlego só. O mastigar frenético marca o ritmo. A miscelânea de imagens me enjoa.
Largo o pacote de amendoins. Quase vazio.
Continuo com a roleta russa de canais até voltar ao ponto de partida: Chopin.
Permito que os acordes permaneçam aqui. Eles vêm acompanhados pela angústia.
Crescem com o andamento da música. O remorso aparece, marcante, executando o seu solo.
Meus olhos ardem, pesam. A visão se embota. Uma lágrima trilha meu rosto. Salga meus lábios.
É Noturno em mim.
A consciência pesa cada vez mais. O estômago segue seus passos. Estou empanturrado. Farto. Cheio de tudo.
Isso não é vida.
Meus pensamentos viram pasta. Ficam pegajosos. Pioram o meu estômago.
Por que fui comer tanto?
Preciso tirar isso de mim.
Vou até o banheiro. Levanto a tampa do vaso. Ajoelho-me diante da privada. Por um instante, fico imóvel. Curvado sobre o que sobrou da minha noite.
O corpo entende antes de mim.
Tudo o que engoli parece querer voltar como sentença. E volta. Em ondas. Em restos. Em cansaço.
A música chega de longe.
Chopin me acompanha de mansinho, como se tocasse para outro homem. Não para este, largado ali, vencido pelo excesso, procurando algum tipo de alívio no próprio castigo.
Depois de tudo, sempre me acalmo.
Como se a comida devolvida fosse uma tentativa de remissão.
Levanto-me e me olho no espelho. A lividez me assusta.
Preciso parar com isso.
Vou acabar morrendo.
Molho o rosto. Lavo da boca o sabor do desgosto. Olho para o fundo da privada e vejo o que sobra de mim. Pressiono a descarga. A espiral de água limpa faz tudo girar. Seguro-me na parede. Fico ansioso, apertando a descarga com força. Uma, duas, três vezes.
Quero me livrar logo daquilo.
Fico observando o turbilhão cumprir o seu papel até o fim. Preciso ter certeza de que minhas fraquezas, misturadas ali, estão sendo arrastadas para longe.
Prometo que isso não vai se repetir.
Nunca mais.
Volto ao sofá.
Chopin se foi.
Pego o controle remoto e começo a procurar algo para ver. Vou mudando os canais com calma, a princípio, mas logo me impaciento.
Nada que preste.
O controle sofre a pressão. Mudo os canais cada vez mais rápido. Sem espaço entre eles. Ajeito o corpo, irritado.
Esbarro no pacote com a sobra dos amendoins.
Fixo nele um olhar doente.
E a minha boca começa a salivar outra vez.




Comentários