Cidade 2.0

O garoto já estava acordado quando as luzes surgiram no céu.
Por um instante, elas rasgaram a escuridão da noite. Com um rugido, passaram sobre a cidade adormecida. Brilharam como fogos de artifício no Dia da Independência e desapareceram além das colinas arenosas. Seguiu-se um minuto de silêncio — como se nada tivesse acontecido.
E, pela manhã, o pai voltou.
— Pai! — o menino correu para abraçá-lo.
O homem deixou-se cair pesadamente em uma cadeira, apoiando-se no encosto de madeira. Seu rosto estava abatido. A pele acinzentada parecia escorrer, como cera derretendo numa vela recém-acesa. O peito afundado subia e descia lentamente. Seu olhar permanecia fixo na parede.
Vestia uma camisa xadrez vermelha e jeans desbotados. Tinha cheiro de metal queimado, e sua respiração rouca carregava o odor de borracha chamuscada.
Foi então que, pela primeira vez, o garoto ouviu aqueles sons estranhos:
Clique-clique-clique-clique.
— Você voltou ontem à noite? Você? De verdade?
O homem não respondeu. Não desviou os olhos. Parecia estudar a parede diante dele — como se constelações do zodíaco tivessem surgido ali, e não apenas o concreto vazio.
Então, lentamente, virou a cabeça para o menino e disse:
— Sim. Sou eu.
— Ray! — veio a voz da mãe da cozinha. — Você já acordou?
Ela congelou. Seus olhos se arregalaram. Olhou para o filho, depois para o marido.
— Ray, venha para a cozinha. Agora.
Quando ele se aproximou, ela se agachou diante dele. Ficou observando-o por um instante antes de falar.
— Raymond, você é um bom menino, não é?
— Sim, mãe.
— Então, se eu lhe pedir uma coisa... você promete que não vai contar para ninguém, certo? Entendeu?
Ela agarrou seu pulso, apertando-o.
— Não conte a ninguém que seu pai voltou.
— Nem para o tio Einar? — perguntou o garoto.
— Nem para ele. Jure.
Os dedos dela apertaram ainda mais seu pulso, e sua voz tremia.
— Está me ouvindo? Está me ouvindo?!
— Sim, mãe — respondeu ele, quase chorando. — Eu juro.
À tarde, os militares chegaram.
Vieram em três veículos blindados. O ronco dos motores fez os vizinhos afastarem as cortinas. As portas rangeram ao se abrir e botas marrons tocaram o asfalto.
Rostos severos. Nenhum traço de emoção.
Atrás dos óculos escuros, seus olhos eram indecifráveis.
Bateram suavemente à porta e entraram sem esperar resposta.
— Boa tarde — disse um homem alto de cabelos grisalhos ao entrar na sala.
Vestia roupas civis, não uniforme. Dois oficiais mais jovens estavam atrás dele.
“Vieram buscá-lo. Eles sabem...”
O coração da mulher disparou. Ela tentou se recompor. As unhas afundaram nas próprias palmas.
— Claro, entrem, por favor — disse, forçando a calma. — Gostariam de um café? Está fresco. Acabei de passar.
O oficial mais velho ergueu a mão, interrompendo-a.
— Senhora Smith — começou.
— Nora — corrigiu ela.
— Nora... — repetiu ele com um sorriso seco. — Imagino que saiba quem somos e por que viemos.
— Sim... imagino.
Ela mal conseguiu pronunciar as palavras. Uma lágrima escorreu por sua face. Ela a enxugou rapidamente e puxou o ar.
— Aconteceu alguma coisa com meu marido?
— Não sabemos — respondeu ele, em tom baixo, mas firme. — A expedição de seu marido foi bem-sucedida. Eles estavam voltando para casa.
— Encontraram alguma coisa?
— Talvez. Não posso dizer. É informação confidencial, senhora Smith... Nora.
— No caminho de volta, a nave provavelmente atravessou uma chuva de meteoros.
— Provavelmente?
— A menos que tenham sido os russos. Perdemos contato com a tripulação quando a nave entrou na atmosfera terrestre.
— Então aquelas luzes que vimos no céu ontem à noite eram...
— Sim — interrompeu o homem, enquanto seus olhos percorriam o ambiente em busca de algo. — Eram destroços da nave. Como sabe, a tripulação era composta por nove pessoas. Sete foram encontradas.
— Mortas? — perguntou ela.
— O destino de duas permanece desconhecido — continuou ele, ignorando a pergunta. — O capitão e seu marido, senhor Smith. Suspeitamos que ele...
— Você não acha...
Ela voltou a soluçar. As lágrimas escorriam livremente.
— Não acha que depois de uma queda dessas meu marido simplesmente atravessaria a porta e diria: “Oi, Nora!”?
— Mamãe! Mamãe!
A voz veio da cozinha. Em um instante, o garoto já a abraçava.
— Mas o papai vai voltar, não vai? — perguntou ele, olhando para o homem.
— Vai, sim — sussurrou a mãe, beijando o topo de sua cabeça.
Talvez tenha sido naquele momento que o garoto ouviu novamente o som suave:
Clique-clique-clique-clique.
— Meu pai é um herói, não é?
— Você deveria se orgulhar dele, garoto — respondeu o homem.
— Adeus, senhora Smith. Nora... Adeus, Ray...
— Como o senhor sabe meu nome?
O homem não respondeu. Apenas fechou a porta atrás de si.
Os motores rugiram e desapareceram ao longe.
— Ele sabe de tudo — sussurrou a mulher, tremendo. — De tudo!
Assim que eles partiram, o garoto correu para o porão.
A mulher deslizou pela parede, impotente.
— Pai! Pai, eles vieram! Mas eu não...
O pai estava de costas, a cabeça inclinada para cima.
Nas mãos, segurava uma lata metálica sem brilho, que refletia fracamente a luz. Ela estava pressionada contra seu rosto.
Espasmos percorriam sua camisa e o porão ecoava um som úmido e borbulhante.
O cheiro de graxa automotiva queimava as narinas do menino.
Clique-clique-clique-clique.
O homem se contorceu e lentamente afastou a lata do rosto.
Algumas gotas negras respingaram no chão.
Com a outra mão, limpou o o queixo e se virou.
À luz fraca, o garoto viu o líquido preto e viscoso escorrendo pelo canto da boca do pai. Descia pelo pescoço, encharcava a camisa.
— Pai, eles... mas... eu...
— Nós sabemos.
A voz zumbia como uma corrente elétrica.
— Vá para o andar de cima. EU. NÓS. VOU. VAMOS. LOGO.
Não precisou repetir.
O garoto disparou, subiu a escada. Deixou a porta entreaberta.
A cabeça do pai girou para trás e tombou sobre o peito.
Sua boca abriu-se em espasmos.
Os olhos reviraram.
Com um rangido metálico — como a abertura de uma comporta de nave espacial — seu tórax partiu ao meio.
Em vez de sangue, óleo.
Uma agulha dourada disparou para fora.
E AQUILO, aquilo que um dia fora seu pai, a apanhou com precisão. Ray chamou pela mãe.
— QUERIDO. O PAPAI. ESTÁ. VINDO! — disse ela, surgindo atrás dele. Nas mãos. uma agulha idêntica.
A corrente de ar quente atravessou o pé da criança; inundou a escada.
Ele não teve tempo de gritar.




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