Noite da invasão

Segunda-feira, 19 de maio de 1986. Por volta das oito da noite, ele saiu do banho. Como era de costume, foi até a varanda do apartamento, no oitavo andar do prédio onde morava, ali, bem próximo ao aeroporto, na pacata cidade de São José dos Campos. Apreciava a deliciosa noite de outono. De repente...
— Mas, o que será aquilo? — perguntou a si mesmo.
Um enorme objeto voador, em forma de disco, pairava sobre o prédio, a mais ou menos dez mil metros de altitude. Podia ser visto a olho nu, mas será que só ele estava vendo aquilo? Certamente, não!
Imediatamente, ligou para o aeroporto e soube que estavam investigando o fenômeno. Era preciso documentar aquilo! — pensou. — Armou-se da câmera inseparável. Enquanto isso, luzes enormes se acenderam ofuscando a visão de quem olhava para cima. O céu escureceu mais um pouco e, agora, eram diversos objetos como aquele, pairando sobre prédios nas imediações.
— Será que estamos sob um ataque alienígena?
— Que tipo de brincadeira será essa?
— Estão nos espionando! Deve ser coisa de potências estrangeiras!
Ele notou que havia diversas pessoas, nas ruas e nas sacadas dos prédios vizinhos, de olhos fixos no espaço, gestos nervosos e bocas abertas em sons de interjeições e interrogações. Ainda que, cegos pela intensa luz, arautos do desespero já viam armas apontadas para o solo... Suas lentes não as captaram...
— Ooohhh! Meu Deus! O que será aquilo?
— Será que vão nos atacar!? Vejam! Parece uma espécie de canhão!
— Cadê a Força Aérea!? Jesus, Maria, José!!!
Por volta das dez da noite, ele e todos os observadores, visualizaram uma estranha movimentação das naves. Os OVNIs começaram a se movimentar e alguns apareciam e desapareciam em questões de segundos. Puderam ver, também, alguns aviões de grande porte no encalço deles. Teria começado ali uma batalha entre humanos e alienígenas? A aflição durou a noite toda. Quando a madrugada veio arrastando o dia, os objetos voadores sumiram e, Nikomy entrou para o quarto, ainda, pensando se vivera apenas um sonho, ou, um pesadelo. Teria, realmente, visto aquilo? Precisava revelar as fotos e ouvir as notícias sobre o fenômeno. Será que, finalmente, eles haviam se mostrado aos terráqueos? De qual Planeta seriam? Estava absorto nesses pensamentos quando a campainha tocou. Dois agentes se apresentaram...
— Bom dia senhor! Somos agentes da NASA! Sabemos que o senhor filmou os eventos dessa noite! Precisamos que nos entregue a câmera e os negativos! É uma questão de segurança nacional.
— Mas... mas, isso é um absurdo! Centenas de pessoas viram aquilo no céu!
— Certamente! Entretanto, só os que filmaram, ou, fotografaram receberão a nossa visita! Creia, senhor Nikomy, é para seu próprio bem!
Mesmo diante dos protestos, o fotógrafo teve sua câmera e negativos levados pelos supostos agentes que, também, desapareceram.
*
Naquela noite de outono, céu de brigadeiro e Lua cheia, cinco aeronaves brasileiras receberam autorização formal para interceptar vários objetos não identificados em nosso espaço aéreo. Três delas tiveram contato visual e tentaram persegui-las, em vão. Uma sexta nave, enviada por um país aliado, atuou sob sigilo...
— Estou vendo um deles! Luzes, a nove mil metros! Câmbio!
— Aumente a velocidade para 3.2 Match! Em dois minutos ele estará sob mira! Procedimento de interceptação! Ordene que desçam, ou, abra fogo! Câmbio!
— Não é possível! É incrível o que estou vendo! Câmbio!
O piloto, de codinome Little X, estarrecido, notou que a nave alienígena, assim que ele se aproximou, a uma velocidade de 3.800 km p/h efetuou uma manobra evasiva, em subida vertical, à cerca de 15.2 Match. Isso equivale dizer que acelerou a, mais ou menos, 18.000 Km p/h. Isso, nem mesmo um foguete seria capaz de fazer, não sem uma torre de lançamento. Mas, estava acontecendo diante de seus olhos.
— Ele esteve na mira, por apenas um segundo! Câmbio!
Enquanto este recebia ordens para retornar ao Comando, as outras aeronaves perseguiam os OVNIs em vários estados do país: Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás, Brasília, entre outros. Os alienígenas pareciam brincar de pega-pega e esconde-esconde, posto que, ora deixavam os perseguidores se aproximarem e, ora desapareciam de suas vistas e de seus radares.
— Malditos! Queria ter derrubado pelo menos um deles!
A autonomia de combustível das aeronaves terminou antes mesmo que os objetos sumissem de vez. Entretanto, dessa vez, havia uma certeza: eles estavam entre nós. Mas, como podiam aparecer e desaparecer, assim, do nada? Essa pergunta só poderia ser respondida por eles.
*
Um ser misterioso adentrou ao comando da Frota Interplanetária Espacial da Galáxia Andrômeda. Era um indivíduo de meia altura, sereno, calmo e intrigante, porém, parecia estar descontente com alguma coisa. Trazia um medalhão de estrela brilhante no pescoço e, imediatamente, pediu a palavra ante aos treze supremos sacerdotes:
— Gostaria de saber quem autorizou a abertura do portal? — disse, não escondendo seu descontentamento.
— O que disse, Senhor!? Abriram o portal interdimensional? — indagou um dos treze que se encontrava na mesa oval.
— Nesse momento, o meu reino de Urântia está sob ataque de 21 naves de nossa frota estelar!
— Não é um ataque, é apenas um teste de reconhecimento recíproco! — retrucou um dos presentes.
Logo em seguida, ficou sabendo que uma parte do Conselho dos Treze havia autorizado uma viagem de estudos ao Planeta Urântia a fim de ver a evolução daqueles seres, também, chamados de terráqueos.
— Constatamos o primitivismo deles, quase abateram uma de nossas espaçonaves sem a menor provocação! Devíamos exterminá-los de vez!
— Vocês sabem que eu sou o protetor daquele povo e deveria ter sido avisado desta operação! Recolham nossas naves imediatamente.
Ao ouvir esta ordem, Lorde Zarat, o líder da oposição se levanta para contestar as palavras daquele outro iluminado.
— Sabemos que Urântia é um mundo condenado! É apenas uma questão de tempo para que eles mesmos se destruam entre si! Por que não anteciparmos esse fim? — disse debochadamente.
— E seríamos nós, seres mais avançados, que causaríamos a destruição deles? Como classificaríamos a nossa intervenção? Seríamos melhores ou piores que a nossa própria criação? Além disso, sempre haverá a possibilidade de mudança, dada às características da raça humana!
Com essas palavras ouviu-se um burburinho que aos poucos foi se transformando em silêncio. O misterioso homem, então, tira o medalhão do peito e o mostra a cada um dos presentes, dizendo-lhes estas palavras:
— Apenas meu Pai tem o poder de decretar a vida e a morte de mundos, Universos ou Planetas! Retirem-se agora aqueles que propagam o mal e ousam desafiá-lo! Eu ordeno que que saiam, em nome d’Ele.
— Maldição! Um dia você irá se arrepender por isso Príncipe Nebadon! — vociferou o interlocutor.
As ordens transmitidas foram recebidas com ódio, mas acatadas, por Lord Zarat e um terço dos seus seguidores que se levantaram e deixaram a sala de reuniões. Ao mesmo tempo, o portal aberto entre os dois mundos era fechado.
Os habitantes da Terra — Urântia — jamais souberam porque a grande frota de OVNIs vista naquela noite de maio, desapareceu sem deixar vestígios de sua passagem. Talvez, não seja à toa que muitos subvertem o dito popular: “Deus é brasileiro, mas acima de tudo, um terráqueo”.
— Que Michael de Nebadon, Príncipe de Urântia, nos proteja, hoje e para sempre do Mal!
Amém!!




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