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A dor silenciada

há 3 horas
3 min de leitura

Um grito feminino cortou o silêncio do Residencial Boa Morada, em Santo André, naquela noite fria de julho de 2025, por volta das 20h, em uma quinta-feira que parecia comum. Era Clara.

Todos correram para as janelas. Buscavam entender o que se passava. Celulares foram deixados de lado, tarefas domésticas foram suspensas e quem estava apenas desfrutando do conforto do lar, não conseguiu ficar indiferente ao burburinho.


Pela janela do quarto, o surto de uma mulher de meia-idade era exposto para quem quisesse ver e ouvir o desespero que ela não conseguia conter no seu próprio apartamento. Era o retrato de uma pessoa doente, como tantas outras na sociedade, que aparentemente sufocam dores, decepções e sofrimentos psíquicos que, em vez de serem acolhidos e tratados, acabam muitas vezes anestesiados pelo álcool e por tantos outros vícios.


Mas, naquela noite, uma discussão com o marido horas antes foi o estopim para o que Clara calava há tanto tempo. Curiosos se reuniram no meio do condomínio para assistir àquela cena dramática. Ela, que já não era uma pessoa benquista no residencial pelo jeito “barraqueiro” de ser, passou a ser agredida verbalmente durante essa situação.


Gritavam das janelas, escondidos atrás das cortinas e da covardia: “Pare de fazer tanto barulho! Se não está feliz, se mata!”, “Quero descansar, pare com essa confusão!”


Alguns incitavam toda essa loucura, outros criticavam tamanho descaso com aquela situação e tentavam acalmá-la. Clara, trancada no quarto, com a janela aberta, gritava: “Eu não aguento mais!”, “Estou no meu limite” ... cada palavra dita era acompanhada de lágrimas que rolavam por sua face, num total descontrole.


Vizinhos correram ao apartamento 64, tocaram a campainha incessantemente. Ninguém atendeu. Clara estava sozinha. O marido, que já havia sido avisado pelo celular, dirigia apressadamente para casa, sem saber que ali nunca mais poderia ser chamado de lar.


Num ato de desespero, dor e fuga de si mesma, ela, que já havia ingerido alguns calmantes junto com várias doses de vodca, resolveu colocar um ponto final em sua dor, mesmo sem ter certeza de que toda angústia cessaria após o fim da vida. Às vezes, pensava que poderia haver algo além de tudo isso aqui, que fizesse mais sentido e explicasse os tantos porquês da existência humana.


Mas, a dor dilacerante e a consciência entorpecida fizeram com que ela se atirasse ao desconhecido. Subiu no banquinho e se lançou, em um ato de desespero, rumo ao fim. Um estrondo foi ouvido, o desespero, o choro e o clima tenso estavam no ar.


Nada mais poderia ser feito. O marido chegou, a polícia também. O local foi isolado e o corpo levado ao Instituto Médico Legal (IML). Os dias se passaram, a família mudou-se (ela tinha dois filhos) e havia conversas nos elevadores e na portaria sobre o ocorrido. “Tenho um conhecido que me confidenciou que ligava para o Centro de Valorização da Vida, o CVV, no número 188”, comentou uma vizinha, que agora se perguntava se essa pessoa pensava em “dar cabo da vida”.

O fato é que nunca sabemos o que se passa, de fato, na mente e no coração de alguém, mas podemos estar atentos aos sinais. Olhar além das aparências, principalmente daqueles com quem dividimos o cotidiano e nunca subestimar a dor alheia.


Um novo grito ecoou pelo condomínio, mas este veio acompanhado de risadas. “Ufa! São as crianças brincando na quadra”, comentou o vizinho do 53. Aliviada, a outra vizinha sorriu; um sorriso meio amarelo, de quem sabe que nunca esquecerá aquele dia de julho.


Seguimos. Alguns dizem que os moradores desse condomínio estão mais empáticos e atentos uns com os outros. Será? O tempo dirá.


 
 
 

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