Do caos e amor

Avon, Natura, Mary Kay. Avon, Natura, Mary Kay. Tudo para pronta-entrega! Moça, vem cá conferir os produtinhos!”
A rua Coronel Oliveira Lima, no centro de Santo André, não é o que tem de pior no centro da cidade, mas também não é bem o que se pode chamar de um local aprazível. À primeira vista, o calçadão - que leva o nome de um ex-vereador do final do século XIX - não é de todo desprezível e não se pode negar que há nele uma certa aura especial, algum charme nostálgico, principalmente para as crianças de outrora.
Talvez sejam apenas as lembranças dos personagens que povoaram aquela via por muitos anos.
Os papais-noéis suados e vermelhos, no sufocante calor do verão tropical de dezembro, distribuindo balas Juquinha e tentando, por meio da atenção dos filhos, cooptar pais compradores para as muitas lojas locais. O anti-sósia de Roberto Carlos, vestido com paletós de cortes mal feitos e seu indefectível mullet, no melhor estilo portenho, perambulando e cantando sucessos do rei decaído.
O Yellowman e suas placas apocalípticas e proféticas, anunciando mensagens canalizadas diretamente das nuvens nas alturas. Da Lojas Americanas gigante - antes da também gigante fraude bilionária de R$54 bilhões! - onde diferentes gerações estrearam na carreira dos pequenos delitos na seção de doces.
As ciganas com sorrisos tortos e dourados, suas saias coloridas e sujas, trocando por alguns trocados previsões duvidosas e alertas sobre “uma pessoa próxima a você que é muito invejosa”. Da Lojas Glória, seus brinquedos e sua discoteca que alimentou a coleção de LPs de muita gente. Sobra nostalgia. Ainda assim, falta amor.
“Ouro. Compro e vendo ouro!”
Criolo disse que “Não Existe Amor em SP”. Bobby Blue Band cantou “Ain’t no love in the heart of the city”. Prefiro essa e, mais ainda, a versão de David Coverdale. Mas, sim, também falta amor no coração do Torrão Andreense.
Por isso, espanta que justamente a esquina sem graça do calçadão da Cel. Oliveira Lima com a Rua Primeiro de Maio tenha sido o local escolhido para tal demonstração de afeto.
Eu entenderia se fosse na esquina com a Elisa Fláquer. Ah, que belo boulevard, aquilo um dia ainda será, com seus cafés, livrarias, restaurantes de qualidade duvidosa e, claro, o Bar do Jé, um dos últimos redutos rock n’ roll não instagramáveis do ABC. Apesar das boas tentativas, ainda não é. Porém, o amor se encontrou em outro trecho.
“Olha a capinha! Reparos e consertos de celulares. Precisa de capinha, amigo? Vem cá, vamos ali ver umas capinhas?”
Ali, no muro de uma loja de departamentos onde um dia foi a já citada Lojas Glória, um casal encontrou repouso para compartilhar braços e lábios - talvez fosse o horário do almoço.
Sem ligar para o mundo ao redor, com seus transeuntes e toda a fauna urbana possível, a aproveitaram o quente e abafado início de uma tarde qualquer saíndo daquele mundo sujo e conturbado e viajando para paragens idílicas.
Entre os estridentes, monótonos e repetitivos gritos dos vendedores ambulantes, alimentaram-se da saliva e do amor, um do outro.




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