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você arquitetou uma fuga perversa, e não satisfeita, quer arrancar meu coração que já não me é muito fiel

há 3 horas
4 min de leitura

o amor é um fofo. mas a paixão é o inferno com suas chamas queimando lentamente cada átomo de um corpo.


um coração boêmio me habita, e não pelo fato de eu gostar de viver a noite paulistana em bares com meus amigos, mas porque ele, sim, meu coração, gosta de dar umas escapadas para aproveitar a vida como se não fosse ele o motivo pelo qual eu mesma tenho uma vida. ele não entende que precisa de mim, para andar melhor por aí. sem a minha ajuda ele se rasteja pelo chão pulsando e deixando um rastro nojento de sangue espesso, como um caracol que tem seu trajeto denunciado pela gosma que o permite deslizar.


eu, de minha parte, com meus novos sapatos, ando por aí com facilidade e sem sujeiras (já faz muito tempo que não piso em merdas). e foi numas dessas caminhadas inocentes, que meu coração ganhou uma aliada tão maquiavélica quanto ele.


pense numa moça. suas características e qualidades não digo, pois sinto ciúme até disso. ela estava de passagem. nosso encontro deve ter durado não mais do que cinco minutos, quando ao me ver teatralmente fragilizada ela se compadeceu. quis saber de mim, e eu cheia de não-me-toque fui direta e rude com a gentileza prestada. ela se interessava por cada coisinha, queria saber tudo como se eu fosse uma história inédita a ser contada, até que eu, amante secreta dos holofotes, deixei que ela ficasse por mais alguns minutos, humildemente prestando uma caridade ao amor da minha vida por deixá-la me olhar.


tenho que admitir a essa altura que eu também não sou flor que se cheire só para entretenimento. sou um animal, um bicho carnívoro, feroz, violento, irracional e movida diretamente pelos meus desejos. então a devorei com o ar que saía do meu nariz, com as palavras que saiam da minha boca e com a imagem dela refletida nos meus olhos. ela gostava. ria e gargalhava de felicidade como se eu estivesse mostrando a ela o mundo pela primeira vez, enquanto eu, verdadeiramente, rasgava seu corpo com os dentes, da mesma forma que máquinas trituram papéis e placas de alumínio amassam o lixo no ferro velho.


quando me dei por satisfeita, a transformei num bolo de coisas e engoli com dificuldade, porque ela não parava de se divertir na descida.


sabia que meu coração gostaria de alguém para se comunicar e fazer companhia. pensei que assim ele não precisaria fugir tanto e me poupar a vergonha de ver aquela bola sangrenta e feia, se rastejando de maneira humilhante, como se não tivesse aprendido ainda que tudo que eu preciso fazer é me abaixar, abrir a mão, pegar naquela imundice e socar de volta para dentro do meu peito, da mesma forma que se enfia roupa suja na máquina de lavar. (por isso eu prefiro trabalhar com o cérebro, mas isso é outra conversa!).


agora me surpreendi. sim. sou falha. não previ isso e confesso até que me doeu. eu estava dormindo. sim, às vezes durmo para lembrar que sou humana. nenhum barulho, nada. estou totalmente à deriva, largada como brinquedo esquecido no meu inconsciente, pairando no absoluto nada da minha cabeça oca. abro os olhos. não acredito. de madrugada? era a primeira vez que ele saía sabendo que eu estava dormindo, que safado!


levantei e segui o rastro. devagar. quis prolongar sua ilusão de vitória achando que conseguiria escapar assim de mim, tão fácil. sabe quando você brinca com uma criança e deixa ela ganhar? quando estão brincando de chutar bola e você chuta bem fraquinho para a criança se sentir importante por ter chutado mais forte? então já sabe quais são as minhas motivações sádicas, nessa apreensão do meu coração.


ando lado a lado da risca vermelha e por um momento até parece que somos paralelas necessárias. ok. a essa distância eu já deveria estar te vendo. mas o que começo a ver são pezinhos. pegadinhas pequenininhas. formatinho de um pezinho com dedinhos. não é possível. chego na sala e lá está ela: empilhando livros para escalar como se fosse uma montanha e chegar até a maçaneta como se fosse o céu.


calmamente eu tiro as chaves da fechadura e pergunto o que querem. ela, pequenininha diz bem agudinho que não pode ficar para sempre dentro de mim. meu coração nem ousa dizer uma palavra sequer, e ela continua se justificando. apesar de ter gostado muito de ficar com meu coração, ela precisava voltar porque tinha de jantar com a esposa e colocar sachê para as gatas. eu diria que meu coração parou, mas ele estava já parado diante de mim, sem ter a coragem de ao menos me encarar de volta. esposa? mas como? o sachê das gatas tudo bem, eu mesma faria questão de acompanhá-la nessa missão. agora, uma esposa? percebi então que fui tratada como amiga e que me adiantei talvez ao imaginar um futuro baseada nas cinco horas que passamos juntas. não havia a menor possibilidade de a minha sorte mudar em relação ao meu destino.


me dando por vencida, afasto os dois livros inutilmente empilhados na porta, coloco a chave na fechadura e viro, abrindo um vão fino por onde ela passa sem esforço dando grandes saltos nos degraus da escada. descendo em direção à rua, me agradece pela estadia e diz que volta.


— estou muito feliz pela nossa amizade! obrigada, hein!


ao trancar a porta e colocar os livros num lugar alto, vejo aquela bagunça, melecada de vermelho que vou ter de limpar mais uma vez. que inferno!


 
 
 

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